sexta-feira, 21 de outubro de 2022

A vida invisível de Eurídice Gusmão - Marta Batalha

 

 

Já fui mais produtiva em questão de resenhas de livro, mas hoje em dia só faço quando me sinto impelida a isso pelo próprio livro. Foi assim com Crime e Castigo e foi assim, agora, com A vida invisível de Eurídice Gusmão.

Por quê invisível? Você se pergunta. Invisível por ser igual a de milhares de outras mulheres na sociedade do Rio de de Janeiro em meados do século XX. Invisível, por ser também tão arcaica quanto atual. Ainda existem por aí milhares de Eurídices, engaioladas em seu próprio papel de dona de casa e cuidadora dos maridos e filhos.

Marta Batalha descreve de forma fluida e muito prazerosa o percurso social da mulheres cariocas daquela época; colégio, namoro, casamento. Saindo de uma prisão e indo para outra.

Eurídice é o modelo perfeito, sempre tímida e acanhada, era ofuscada pela irmã mais velha, Guida, que - de certa forma - agia a frente de seu tempo, por enxergar a vida com olhos de quem quer ir além do senso comum, de quem sabe o que quer. Porém, mesmo sabendo o que queria e tendo movido mundos e fundos para conseguir, Guida também encontrou-se em uma prisão social, ligeiramente diferente da que a irmã encontraria depois que Guida fugisse de casa para viver um grande amor.

Sem a filha mais velha em casa, todos os esforços dos pais de Eurídice foram para que ele seguisse a trajetória almejada para uma "moça de família" e assim foi. Mas Eurídice, como milhares de outras mulheres, tinha dentro de si algo que queria mais que aquilo; mais que cuidar dos filhos, da casa, do marido; Eurídice poderia ser o que quisesse, tinha potencial para o que se aplicasse a fazer. Tentou várias vezes, em campos diferentes, mas ao manifestar suas habilidades logo era silenciada, pois nem marido nem filhos tinham interesse no que ela estava a fazer de forma extraordinária; sentindo-se diminuída, Eurídice se recolhia novamente até encontrar um novo interesse.

Foi nesse recolhimento recorrente que Eurídice acabou perdendo a vontade, dava para ver em seus olhos, não tinha mais aquela vontade de ter algo só seu, de que adiantava?

Não só o marido, mas toda a estrutura social esmagava quaisquer aspirações de mulheres que deveriam ficar quietas em casa, cumprindo seu papel maternal. A sociedade representava "a parte de Eurídice que não queria que Eurídice fosse Eurídice", acho que esse foi o termo mais sensacional que eu já vi no livro.

Poder ser quem quiser é, ainda hoje, um privilégio. Temos mais liberdade social? Sim. Temos mais direitos que antes? Sim. Mas nossas amarras mentais nunca foram tão fortes como atualmente. É isso que vejo na escrita de Martha: uma atualidade arcaica.

Em meio aos dilemas de Eurídice, deparamos com outros elementos muito comuns a qualquer sociedade, não só a carioca. A vizinha fofoqueira e amargurada (também com seus motivos e história de vida), o filho que ficou para cuidar da mãe até morrer e a mãe que não deixa esse filho viver a não ser para ela e somente ela. O marido que não se satisfaz com a esposa modelo de comportamento por que acha que não foi o único a tê-la em seus braços. O amor frágil que sucumbe ao primeiro sinal de dificuldade. A luta das mães solteiras. A vida ainda mais invisível da empregada doméstica da qual os patrões não tem noção do tamanho do sofrimento e que ela abafa pra sobreviver um dia de cada vez.

É um livro que espelha a dificuldade da vida de uma mulher em vários âmbitos e de forma tão clara e leve que é praticamente impossível não se enxergar nem que seja em um único pedacinho dele.

Com certeza, virou uma das minhas escritoras brasileiras favoritas, já quero ler outras de suas obras.


sábado, 8 de outubro de 2022

Sobre ser o seu próprio colo


Eu considero que gosto da minha companhia agora, consigo me entreter, ter meus objetivos, me acalmar sozinha. Mas há dias em que é pesado demais; em que aquela voz dentro de mim fala que eu não importo para ninguém, que não posso contar com ninguém, que só é bom estar comigo em momentos felizes, mas quando minha parte triste aparece não há quem me console.

Nessas horas, eu preciso brigar comigo mesma. Sempre serei meu próprio colo, ninguém pode fazer isso por mim. Nos dias em que a parte de mim que não gosta de mim resolve não calar a boca, eu preciso brigar de volta e com força. Alguns dias eu perco, deito a cabeça com os olhos salgados e durmo, mas ao amanhecer eu estou de pé, novamente na luta.

A vida é mais do que sentir pena de mim mesma. A vida tem infinitas possibilidades e eu não vou deixar nenhuma parte de mim me privar disso.


Nathaly M.



segunda-feira, 26 de abril de 2021

How much

Walking around the avenue, she wonders:
What did I do? Where did it go wrong?
Did I smile too much? Did I talk too much? Did I expect too much from him? Didn't I give enough of myself?
Should I shut up, be indifferent, be different, not be me anymore, a perfect sketch of a woman?
How many lines can I write before he gets bored and starts ignoring me?
How much more until he gives me crumbs of what I actually deserve?
How much more
until i respect me
as a
woman
again?

domingo, 11 de abril de 2021

Crime e castigo (F. Dotoiévski)

Depois de 5 anos sem resenha, vim tirar a poeira desse blog, pois um livro me obrigou a isso. Não tive como não falar sobre, preciso colocar para fora todas as impressões.

"Ele é um homem inteligente, mas para agir de modo inteligente a inteligência sozinha não basta".

Crime e castigo, de Fiódor Dotoiévski, é um clássico mundialmente conhecido. Narra a história de Raskólnikov, um estudante de direito, porém com problemas financeiros, de saúde e muitas ideias de grandeza relacionadas a grandes líderes, como Napoleão.

No alto de seu desespero ante sua situação financeira, que o levava a ter de receber ajuda da mãe para sobreviver na cidade e pagar seus estudos, Raskólnikov decide assassinar uma senhora (agiota) com a qual havia penhorado alguns de seus objetos e, assim, tomar posse do seu dinheiro e buscar estabilidade e futuro na sua carreira. Essa é uma das suas justificativas para o crime: seu desespero.

Dotoiévski expõe de forma maestral o processo psicológico do crime principal do livro; traz em minúcias toda a angústia desde o começo - O que ele vai fazer agora que cometeu o crime? Onde vai esconder as provas? Há alguém que possa persegui-lo? Como justificar seus movimentos?

Mas, acima de tudo, Dotoievski entra a fundo na psique de um homem perturbado em sua mente e que decide cometer um crime motivado pelo desespero, mas principalmente pelas ideias que regem seu orgulho. Para Raskólnikov, há indivíduos que são extraordinários e que, por sua extraordinariedade, possuem permissão inata para transgredir as regras. Em um de seus devaneios, devido a sua paranoia entre estar ou não estar a ponto de ser descoberto pelo seu delito, o rapaz reflete que a maioria das pessoas não passam de piolhos e que indivíduos extraordinários têm o direito de dar passos que transgridem as regras da sociedade habitual, não podendo ser culpados por isso, pois suas ações, em sua essência, são racionais e fazem sentido geral, até beneficiando a sociedade apesar de serem imorais e criminosas.