sábado, 19 de agosto de 2023

Sobre amores, cólera e espera

 

Recebi esse livro por correio, chegou bem velho e cheio orelhas, páginas amareladas, a lombada com vinco. Fiquei meio decepcionada, mas o coloquei na estante para que esperasse o momento de ser lido. Mal sabia eu que sua aparência denunciava seu conteúdo, não por ser ruim, mas por mostrar que a passagem do tempo, que as marcas que ele deixa, não diminuem em nada o sentimento que permanece depois dessa leitura.

Esse não é um romance meloso, não é aquele enredo que você só precisa ler meia sinopse para saber o final, mas lê mesmo assim porque é uma história bonitinha. Não, não é doce. Mas é o romance com a maior quantidade de amores sinceros que já vi na vida.

"As pessoas que a gente ama deviam morrer com todas as suas coisas"

É sobre preservar um sentimento, mas não deixar de seguir a vida por isso e, ao mesmo tempo, seguir na esperança de que - enquanto houver chance - esse amor possa ser depositado no lugar devido. Tanto amor havia no personagem principal que acabou por guiá-lo a tocar várias vidas, amar e amar e amar tantas mulheres, amar sinceramente - ele não nomeava de outra forma. Eram amores, cada um com suas particularidades, mas ainda assim amores.

"Pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, por todas com a mesma dor, sem trair nenhuma"

Florentino começou ainda adolescente a descobrir como um sentimento pode atravessar o tempo e guiar sua vida, mesmo depois de uma rejeição. Não é à toa que os sintomas do amor se confundiam com o do cólera, ele toma seu corpo e mente. Embora isso não o tenha impedido de viver outros afetos e de dedicar-se a eles. É isso que eu acho mais interessante no enredo. A forma como ele reconhece que ama outras pessoas, que convive com elas, muitas vezes por anos e até décadas, como esses relacionamentos o afetam e como isso não diminui em nada o amor que ele tem por Fermina e que vai continuar a ter enquanto viver. Isso é o mais belo do amor. Não é um sentimento egoísta, não é ter o outro para si, mas dar o que se tem e receber o que há e ser feliz com isso. 

"Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado"

Outra coisa que o livro mostra é a construção do amor que não chega de súbito. Como uma pessoa, com a convivência, vai construindo um sentimento nas pequenas coisas, até que se perceba amando a outra, um amor morno e calmo, mas forte como qualquer outro à primeira vista. Todos os tipos e formas do amor aparecem e todos são belos e válidos, pois todos foram bem vividos e me sinto grata ao Gabriel, por me lembrar que ainda consigo escrever sobre o amor.

"Pois tinham vivido juntos o suficiente para perceber que o amor era o amor em qualquer tempo e em qualquer parte, mas tanto mais denso ficava quanto mais perto da morte"



sábado, 29 de abril de 2023

O Talentoso Tom Ripley - Patricia Highsmith

 
O personagem principal desse livro me trouxe tantos sentimentos conflitantes que eu não tive escolha a não ser fazer uma resenha.

Tom Ripley é um jovem americano, na casa dos 20 e poucos, que vive de pequenos golpes, estelionatos etc., o famoso 171. Um dia, ele recebe a visita do pai de um conhecido, que pensava que ele era um amigo próximo do filho e, por isso, intercedeu por sua ajuda para convencer Dickie (o filho do Sr. Greenleaf) a voltar da Itália para os EUA e assumir os negócios da família. Para isso, o Sr. Greenleaf garantiu que pagaria todas as despesas de Ripley para essa tentativa.

Tom viu nesse pedido uma oportunidade para sair, nem que fosse de forma breve, de sua vida medíocre e viajar pela Europa, conhecer novos lugares, culturas e pessoas. Assim o fez. O rapaz não investiu muito na tentativa de trazer Dickie de volta para a família, pois viu nesse reencontro a chance de passar mais tempo que o previsto na Itália, tentando então fortalecer sua amizade com quem antes era apenas um conhecido, Tom se esforçou para fazer parte da vida de Dickie; saindo, fazendo-o rir, levando-o para aventuras. Porém, Marge, a companheira (por assim dizer) de Dickie, começou a sentir-se incomodada com a proximidade dos dois. O americano tinha sentimentos conflitantes sobre o que Tom queria dele, assim como o próprio trambiqueiro.

Além de uma certa atração sexual ou afetiva, percebe-se em Tom uma inveja profunda do estilo de vida de Dickie, como se ele não a merecesse por não aproveitar ao máximo. Ripley pensava o tempo inteiro como seria viver como o amigo, na Europa, cercado de cultura e de bens materiais de qualidade. Percebendo que sua presença não era mais desejada nem por Dickie e nem por Marge, Tom acaba agindo por impulso, desesperado por não perder o estilo de vida que antes não conhecia, mas que passou a adorar.

A partir daí, vemos como Tom passa por uma transformação ou exacerbação em seu estado mental fragilizado. Sua vida vira uma sucessão de mentiras, tão elaboradas que ele mesmo passa a acreditar nelas. Ele age como um ator em tempo integral, passando e repassando situações em sua cabeça para evitar perder o que conquistou por meios definitivamente sórdidos. O mais impressionante não é o quão elaborada é a fantasia que Ripley cria, mas o quanto seu ego sustenta tantas mentiras e o quanto ele manipula a si próprio, crendo estar sempre certo em suas decisões, vendo qualquer erro apenas como um empecilho à vida que ele tem certeza que merece.

Um personagem imerso numa torrente de mania de grandeza, soberba, mesquinhez e arrogância que arrasta quem estiver no seu caminho para não voltar a ser o jovem miserável que era em Boston.

Leitura fascinante de um dos romances policiais mais aclamados.


Nathaly M. 

sábado, 25 de março de 2023

Se eu fosse eu


Esse ano, na minha lista de leitura, mais de um terço dos livros são de Clarice. Por quê? Não sei. Talvez seja apenas a saudade do que ela me faz sentir. (Nathaly M.)

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir. 

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Clarice Lispector

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

A vida invisível de Eurídice Gusmão - Marta Batalha

 

 

Já fui mais produtiva em questão de resenhas de livro, mas hoje em dia só faço quando me sinto impelida a isso pelo próprio livro. Foi assim com Crime e Castigo e foi assim, agora, com A vida invisível de Eurídice Gusmão.

Por quê invisível? Você se pergunta. Invisível por ser igual a de milhares de outras mulheres na sociedade do Rio de de Janeiro em meados do século XX. Invisível, por ser também tão arcaica quanto atual. Ainda existem por aí milhares de Eurídices, engaioladas em seu próprio papel de dona de casa e cuidadora dos maridos e filhos.

Marta Batalha descreve de forma fluida e muito prazerosa o percurso social da mulheres cariocas daquela época; colégio, namoro, casamento. Saindo de uma prisão e indo para outra.

Eurídice é o modelo perfeito, sempre tímida e acanhada, era ofuscada pela irmã mais velha, Guida, que - de certa forma - agia a frente de seu tempo, por enxergar a vida com olhos de quem quer ir além do senso comum, de quem sabe o que quer. Porém, mesmo sabendo o que queria e tendo movido mundos e fundos para conseguir, Guida também encontrou-se em uma prisão social, ligeiramente diferente da que a irmã encontraria depois que Guida fugisse de casa para viver um grande amor.

Sem a filha mais velha em casa, todos os esforços dos pais de Eurídice foram para que ele seguisse a trajetória almejada para uma "moça de família" e assim foi. Mas Eurídice, como milhares de outras mulheres, tinha dentro de si algo que queria mais que aquilo; mais que cuidar dos filhos, da casa, do marido; Eurídice poderia ser o que quisesse, tinha potencial para o que se aplicasse a fazer. Tentou várias vezes, em campos diferentes, mas ao manifestar suas habilidades logo era silenciada, pois nem marido nem filhos tinham interesse no que ela estava a fazer de forma extraordinária; sentindo-se diminuída, Eurídice se recolhia novamente até encontrar um novo interesse.

Foi nesse recolhimento recorrente que Eurídice acabou perdendo a vontade, dava para ver em seus olhos, não tinha mais aquela vontade de ter algo só seu, de que adiantava?

Não só o marido, mas toda a estrutura social esmagava quaisquer aspirações de mulheres que deveriam ficar quietas em casa, cumprindo seu papel maternal. A sociedade representava "a parte de Eurídice que não queria que Eurídice fosse Eurídice", acho que esse foi o termo mais sensacional que eu já vi no livro.

Poder ser quem quiser é, ainda hoje, um privilégio. Temos mais liberdade social? Sim. Temos mais direitos que antes? Sim. Mas nossas amarras mentais nunca foram tão fortes como atualmente. É isso que vejo na escrita de Martha: uma atualidade arcaica.

Em meio aos dilemas de Eurídice, deparamos com outros elementos muito comuns a qualquer sociedade, não só a carioca. A vizinha fofoqueira e amargurada (também com seus motivos e história de vida), o filho que ficou para cuidar da mãe até morrer e a mãe que não deixa esse filho viver a não ser para ela e somente ela. O marido que não se satisfaz com a esposa modelo de comportamento por que acha que não foi o único a tê-la em seus braços. O amor frágil que sucumbe ao primeiro sinal de dificuldade. A luta das mães solteiras. A vida ainda mais invisível da empregada doméstica da qual os patrões não tem noção do tamanho do sofrimento e que ela abafa pra sobreviver um dia de cada vez.

É um livro que espelha a dificuldade da vida de uma mulher em vários âmbitos e de forma tão clara e leve que é praticamente impossível não se enxergar nem que seja em um único pedacinho dele.

Com certeza, virou uma das minhas escritoras brasileiras favoritas, já quero ler outras de suas obras.


sábado, 8 de outubro de 2022

Sobre ser o seu próprio colo


Eu considero que gosto da minha companhia agora, consigo me entreter, ter meus objetivos, me acalmar sozinha. Mas há dias em que é pesado demais; em que aquela voz dentro de mim fala que eu não importo para ninguém, que não posso contar com ninguém, que só é bom estar comigo em momentos felizes, mas quando minha parte triste aparece não há quem me console.

Nessas horas, eu preciso brigar comigo mesma. Sempre serei meu próprio colo, ninguém pode fazer isso por mim. Nos dias em que a parte de mim que não gosta de mim resolve não calar a boca, eu preciso brigar de volta e com força. Alguns dias eu perco, deito a cabeça com os olhos salgados e durmo, mas ao amanhecer eu estou de pé, novamente na luta.

A vida é mais do que sentir pena de mim mesma. A vida tem infinitas possibilidades e eu não vou deixar nenhuma parte de mim me privar disso.


Nathaly M.



segunda-feira, 26 de abril de 2021

How much

Walking around the avenue, she wonders:
What did I do? Where did it go wrong?
Did I smile too much? Did I talk too much? Did I expect too much from him? Didn't I give enough of myself?
Should I shut up, be indifferent, be different, not be me anymore, a perfect sketch of a woman?
How many lines can I write before he gets bored and starts ignoring me?
How much more until he gives me crumbs of what I actually deserve?
How much more
until i respect me
as a
woman
again?

domingo, 11 de abril de 2021

Crime e castigo (F. Dotoiévski)

Depois de 5 anos sem resenha, vim tirar a poeira desse blog, pois um livro me obrigou a isso. Não tive como não falar sobre, preciso colocar para fora todas as impressões.

"Ele é um homem inteligente, mas para agir de modo inteligente a inteligência sozinha não basta".

Crime e castigo, de Fiódor Dotoiévski, é um clássico mundialmente conhecido. Narra a história de Raskólnikov, um estudante de direito, porém com problemas financeiros, de saúde e muitas ideias de grandeza relacionadas a grandes líderes, como Napoleão.

No alto de seu desespero ante sua situação financeira, que o levava a ter de receber ajuda da mãe para sobreviver na cidade e pagar seus estudos, Raskólnikov decide assassinar uma senhora (agiota) com a qual havia penhorado alguns de seus objetos e, assim, tomar posse do seu dinheiro e buscar estabilidade e futuro na sua carreira. Essa é uma das suas justificativas para o crime: seu desespero.

Dotoiévski expõe de forma maestral o processo psicológico do crime principal do livro; traz em minúcias toda a angústia desde o começo - O que ele vai fazer agora que cometeu o crime? Onde vai esconder as provas? Há alguém que possa persegui-lo? Como justificar seus movimentos?

Mas, acima de tudo, Dotoievski entra a fundo na psique de um homem perturbado em sua mente e que decide cometer um crime motivado pelo desespero, mas principalmente pelas ideias que regem seu orgulho. Para Raskólnikov, há indivíduos que são extraordinários e que, por sua extraordinariedade, possuem permissão inata para transgredir as regras. Em um de seus devaneios, devido a sua paranoia entre estar ou não estar a ponto de ser descoberto pelo seu delito, o rapaz reflete que a maioria das pessoas não passam de piolhos e que indivíduos extraordinários têm o direito de dar passos que transgridem as regras da sociedade habitual, não podendo ser culpados por isso, pois suas ações, em sua essência, são racionais e fazem sentido geral, até beneficiando a sociedade apesar de serem imorais e criminosas.

domingo, 8 de abril de 2018

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Devil like me - Rainbow Kitten Surprise


"What you want from a devil like me, devil like me? You see the devil don't mean to be evil, he just regrettably forgets to exceed expectation".


sábado, 17 de setembro de 2016

Cleopatra (The Lumineers)


"I won't be late for this, late for that, late for the love of my life
And when I die alone, when I die alone, when I die I'll be on time..."

Touch

http://xxxsoulfulregretsxxx.deviantart.com/art/Holy-Blossom-I-212499623


A vida, às vezes, te dá um gostinho daquilo que você queria que ela fosse...
Vem tão rápido e tão intenso...
Você fica tão abobalhada, sem saber se é de verdade ou não; se é de comer, de cheirar, de sentir...
Quando menos se percebe, acaba. Você está se despedindo. Mas falando mentalmente: "Fica aqui, só mais um pouquinho".
Mas já era.
O que restou foi o cheiro,
o sabor,
a lembrança.
E, por fim, a saudade...

Nathaly M.
17/09/2016

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Resenha: Carne trêmula (Ruth Rendell)

Sabe aquele livro que é tão foda, mas tão foda, que você se sente na obrigação de "espalhar a palavra" sobre ele? Pois é, foi o que aconteceu depois que terminei de ler esse livro...
Nunca tinha ouvido falar da autora, fiz o pedido do livro por acaso (em uma troca de pontos, olha só que coisa linda!). Estava buscando livros da Agatha e me deparei com "Carne trêmula". Li a sinopse e fiquei curiosa. E posso afirmar que, como minha primeira troca de pontos, eu não poderia ter lucrado mais!

O livro é pocket mas o conteúdo vale por três!

Nesse romance policial, Ruth Rendell nos traz a história de Victor Jenner, um estuprador em série que acaba preso por outro crime durante dez anos. Logo no início, Ruth já nos deixa sem fôlego, pois nos encontramos imediatamente na cena do crime pelo qual Victor foi preso. Não deixando espaço para o tédio e divagações.

O livro explora o relacionamento de Victor e David, este último é o policial que negociou a entrega de Victor na cena do crime e acabou ficando paraplégico devido a um tiro disparado por Victor logo após entregar sua refém (acredite em mim, não é spoiler, isso aparece logo nas primeiras vinte páginas).

sábado, 26 de dezembro de 2015

Resenha: A esperança (Suzanne Collins)

Finalmente li o último livro!

No último livro da trilogia, Katniss foi levada ao distrito 13 após a explosão na arena. Ela e Finnick foram resgatados e, infelizmente, Peeta não foi salvo das garras da Capital. Não existe mais o distrito 12, pois a Capital o queimou por completo.

Gale conseguiu salvar muitas pessoas, mas milhares morreram durante o ataque e tudo o que resta agora é a esperança de que Katniss possa impulsionar a revolução e ajudar a tomar a Capital, instaurando a paz em Panem de uma vez por todas.

Dessa vez nós percebemos que tudo em Panem gira em torno de jogos de poder e influência, ganha quem consegue impressionar mais a população, custe o que custar.

E você de que lado vai ficar?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Resenha: Para sempre Alice (Lisa Genova)


Esse livro nos traz a história de uma professora da Universidade de Harvard, especialista em linguística, extremamente renomada em seu campo de pesquisa. Alice conquistou muitas coisas e está no topo de sua carreira aos 50 anos de idade. Tem três filhos e um marido que a ama muito. Resumindo, tudo vai bem em sua vida até que, claro que sempre tem um até que...

Alice vem experimentando diversos lapsos de memória que ela acaba por ignorar, por pensar ser um esquecimento habitual, daqueles que todo mundo já teve um dia: esquecer o horário de um compromisso, as chaves de casa, o celular...

Mas o que ela não pôde deixar passar foi o momento em que esqueceu o caminho de volta para casa enquanto fazia uma corrida a partir da Universidade, um caminho que ela fazia todos os dias. O pânico se instalou em sua mente e o mundo à sua volta deixou de fazer sentido. Alice, depois de muito refletir, foi à vários médicos e foi diagnosticada com Alzheimer de instalação precoce.

Toda sua vida mudou em pouco tempo, sua vida dependia de sua habilidade como professora, ela perdera sua identidade, seu relacionamento com a família mudou e isso gerou vários conflitos internos.

Nesse livro, a autora nos traz algo excepcional para a compreensão da doença de Alzheimer, ela nos traz o ponto de vista da pessoa que tem Alzheimer. Você consegue entender o que se passa nos momentos de confusão, o que a pessoa está sentindo ao passar pelas mudanças impostas pela doença. No começo, antes do diagnóstico, você percebe os momentos de confusão ao mesmo tempo em que ela os percebe e isso é ótimo. Não é como nos livros técnicos em que você apenas lê os sintomas. Nesse livro você consegue senti-los.

Para quem quer entender o Alzheimer, este livro é essencial. E o filme também é muito bom!

domingo, 13 de dezembro de 2015

Resenha: Em chamas (Suzanne Collins)



O que falar dessa trilogia? Estou amando!

No "Em chamas", Suzanne Collins nos traz mais aventura, mais emoção e muito mais jogos vorazes!

De volta ao distrito 12, Katniss e Petaa estão aproveitando as vantagens de terem se tornado vitoriosos. Dinheiro, comida e tudo mais. O relacionamento continua na mesma friendzone (Será que vai mudar no próximo livro? Veremos.), enquanto que seu relacionamento com Gale fica mais forte no começo do livro.

Mas, nem tudo, quer dizer, quase nada são flores na vida de Katniss Everdeen. Como vitoriosos do ano, eles devem fazer uma turnê por todos os distritos e a capital. É nessa turnê, que Katniss percebe que há algo diferente: os distritos não estão mais submissos como antes, uma revolução está se formando e a capital está com medo. Além de tudo, ela deve manter a farsa do amor forjado nos últimos jogos para manter sua família livre das ameaças do presidente, pois seu "gesto de amor" tornou-se uma fagulha que pôs todos os distritos em chamas.

Em um último esforço para conter a fúria dos distritos, o presidente Snow anuncia o Massacre Quaternário. É um evento que acontece a cada 25 anos, no qual os jogos vorazes possuem regras diferenciadas. Nesse ano, os tributos são coletados da lista de vitoriosos, ou seja, Katniss vai participar obrigatoriamente, pois é a única vitoriosa do sexo feminino em seu distrito.

Nenhum dos tributos está feliz com isso e, aparentemente, nem mesmo a população alienada da capital. Nesses jogos vorazes, Katniss, Peeta e os outros tributos terão de usar todas as suas forças para mostrar para a capital quem manda nessa história.

Nesse livro, tudo é muito "mais". As relações estão mais intensas, a arena é muito mais complexa e os tributos são muito mais interessantes e cheios de personalidade, como Phinnick e Johanna que terão papéis essenciais na trama. Cada um já foi vitorioso e tem muito para mostrar na arena, bom ou mal todos vão fazer a sua leitura valer à pena.


Mal posso esperar para ler o próximo!

Nathaly Moraes
13/12/2015

domingo, 6 de dezembro de 2015

Rotina



Ela estava na pausa do trabalho, mexendo no celular pela enésima vez, mesmo sabendo que não havia nada de novo para ver. Tenho que parar com esse vício, ela pensou. Mas a vida é tão vazia, às vezes, que acabava recorrendo às redes sociais para preencher esse vazio.

Uma piada, uma charge, uma música, até mesmo uma reclamação sobre a política do país a ajudavam a se distrair dos próprios problemas. E, mais uma vez, ela era arrastada de volta à rotina. Tarefa após tarefa; tudo feito automaticamente, o pensamento fixo na ideia de que não podia esperar para sair do trabalho e... fazer nada.

O dia começa de novo, mesma rotina, mesmas distrações. Um convite inesperado surge. Vamos para um barzinho com o pessoal no fim do expediente, quer vir também? Era aquela mulher do RH cujo nome ela nunca lembrava, mas que sempre a cumprimentava ao passar. Que mal pode ter?, pensou. E aceitou.

Chegando ao barzinho, todos pediram uma bebida, inclusive ela; um vinho, precisava de algo forte, pois a semana havia sido estressante. Sua mão começou a procurar pelo celular, pois não lhe ocorria nenhum assunto para iniciar uma conversa, mas parou. Estou em uma reunião social, não preciso do celular para criar uma bolha de isolamento.

Ao levantar o olhar, percebeu que todos os rostos de seus colegas estavam com uma luz azulada. Todos grudados no celular. Suas vidas sendo deixadas de lado através daquela tela minúscula e dos movimentos frenéticos dos dedos das mãos. Bom saber que não sou a única.

Nathaly M.
06/12/2015

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Puta.


"Sou puta
Quando uso a boca vermelha
Meu salto agulha
E meu vestido preto.
Sou puta
Mordo no final do beijo
Não fico reprimindo desejo
E nem me escondo na aparência de menina.
Sou uma puta de primeira
Acordo às 6:30
Pego ônibus debaixo de chuva
Não dependo de salário de macho
E compro a pílula no final do mês.
Sou uma puta com P maiúsculo
Dispenso o compromisso
Opto pela independência
Não morro de amor
Acordo sozinha
Cresço sozinha
Vivo na minha
Bebo em um bar de esquina
Vomito no chão da cozinha.
Sou uma putinha
Passo a noite em seus braços
Mas não me prendo no laço
Que você quer me prender.
Sou puta
Você tem o meu corpo
Porque eu quis te dar
E quando essa noite acabar
Eu não vou te pertencer
E se de mim você falar
Eu não vou me importar
Porque um homem que não me faz gozar
Nunca terá meu endereço.
E não é gozo de buceta
É gozo de alma
É gozo de vida
É me fazer sentir amada
Valorizada
E merecida
E se de puta você me chamar
Eu vou agradecer.
Porque a puta aqui foi criada
Por uma puta brasileira
Que ralava pra sustentar os filhos
E sofria de racismo na feira
Foi espancada e desmerecida
E mesmo sofrida
Sorria o dia inteiro
Uma puta mulher ela foi
E puta também eu quero ser.
Porque ser mulher independente
Resolvida
Segura
Divertida
Colorida
E verdadeira
Assusta os homens
E os machos
Faz acontecer um alvoroço.
Onde já se viu mulher com voz?
Tem que ser prendada e educada
E se por acaso for "amada"
Tem direito de ser morta pelo parceiro
Cachorra adestrada pelo povo brasileiro
Sai pelada na revista
Excita
Dança
Bate uma
Cai de boca
Mama ele e os amigos
E depois vai ser encontrada num bueiro
Num beco
Estuprada
Porque tava de batom vermelho
Tava pedindo
Foi merecido
E se foi crime "passional"
Pobre do rapaz
Apaixonado estragou a própria vida.
Por isso que eu sou puta
Porque sou forte
Sou guerreira
Não sou reprimida
Nem calada
Sou feminista
Sou revoltada
Indignada
E sou rotulada assim
Como PUTA!
Então que eu seja puta
E não menos do que isso."

-Helena Ferreira

Achei aqui.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Resenha: Orgulho e Preconceito (Jane Austen)

Este é mais um livro cujo filme eu assisti antes da obra escrita. E, na minha opinião, o livro não perde em nada para o filme, só acrescenta.

Na Inglaterra do fim do século XVIII, uma mãe com cinco filhas (Elizabeth, Jane, Lydia, Kitty, Mary) luta para sobreviver com sua pouca renda. Ms. Bennet faz de tudo, tudo mesmo, para que  suas filhas consigam um casamento vantajoso e possam, futuramente, "tirar a família da lama".

Não que a situação da família seja miserável, ao contrário, eles têm uma casa de tamanho razoável e também tem servos, então não estão em uma situação tão ruim para a época.

Mas a ambição da Sra. Bennet faz com que ela esteja disposta a aceitar até o Mr. Collins como um pretendente maravilho para uma de suas filhas.
Mr. Bingley diz: That's hilarious!
Com a chegada de Mr. Bingley e seus amigos à cidade, Ms. Bennet entra em alvoroço. Não poderia haver oportunidade melhor para um casamento mais vantajoso para uma de suas filhas. Era preciso levá-las imediatamente ao baile para mostrar os seus encantos.

É nesse momento que a trama começa de fato. Jane e Bingley se apaixonam (acredite, isso não é nem de longe um spoiler); Mr. Darcy que também está no baile começa a demonstrar sua antipatia pelo povo da região e um leve desprezo por Elizabeth Bennet, que até então não o havia notado, mas ficou um pouco ofendida pelo seu desprezo.

A história segue com uma narrativa leve e bem trabalhada. É um ótimo livro para quem gosta de clássicos. Achei admirável o modo como Jane Austen conduz o enredo, fazendo perfeitamente a transição de completa da oposição entre os personagens principais:


... passando por conflitos de interesse, desentendimentos, ressentimentos e dúvidas:


Chegando ao final romântico, mas não meloso (Thanks God for this!), em que o orgulho e o preconceito são vencidos em prol de um sentimento maior:


A história tem vários personagens interessantes que vão cativar o leitor e tornar a trama mais interessante ao enriquecer o enredo com a relações de poder, ambição e mesquinhez da época. O livro traz mais detalhes do que o filme, como sempre; nele nós conseguimos descobrir outro fatos que influenciaram na história, algumas coisas acontecem de forma diferente e, claro, percebemos de forma mais evidente os sentimentos dos personagens.

Nathaly M.
23/11/2015

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Resenha: Jogos Vorazes (Suzanne Collins)

Como assim, eu ainda não tinha lido Jogos Vorazes???
Não, eu não tinha. Acho que, quando todo mundo começa a falar sobre alguma coisa, meu cérebro funciona ao contrário do da maioria das pessoas. Eu não gosto de experimentar uma coisa quando está no auge do sucesso, pois acabo criando muitas expectativas e elas podem não ser alcançadas.

Dito isto, vamos ao que interessa!

Eu amei. Sério. Eu ouvi de algumas pessoas que o filme era melhor que o livro. Eu sei que isso não é impossível, já vi filmes melhores que o livro, mas eu tinha que ver pra crer. Esse livro é um dos poucos que eu li depois do filme e, na minha opinião, o livro é melhor.

Sim, o filme tem as cenas de luta, emoção, efeitos especiais. Sim, tem os atores que fizeram muito bem seu papel. Mas o livro tem aquela coisa que só um ator muito, muito, mas muito talentoso mesmo pode conseguir: os pensamentos.

"...um dia vazio. É o tipo de dia em que não importa o quanto você coloque de comida no estômago, nunca será suficiente". (Katniss durante os Jogos)

Eu desafio você a me dizer qual foi a última vez em que você viu um filme e conseguiu saber exatamente o que o ator estava pensando só de ver a expressão em seus olhos. Isso, meus caros, um livro faz com perfeição.



Como a maioria deve saber, Jogos Vorazes se passa em Panem, ela é a "nação" que restou depois de muita guerra e devastação na América do Norte. Foi divida em 13 distritos e a Capital. Um dos distritos foi dizimado para que servisse de exemplo para que os outros não levantassem uma rebelião. E, para intimidar ainda mais, todos os anos a Capital realiza os Jogos Vorazes. Dois tributos (um masculino e um feminino) de cada distrito são sorteados para lutar até a morte na arena. O vencedor, às custas da morte de todos os outros, ganha o direito de viver na arena dos Vitoriosos e fica livre de participar em todas as outras edições dos jogos.